Avaliar o legado de um presidente é sempre um exercício de memória e valores. O Brasil das últimas três décadas foi palco de transformações profundas: o fim da hiperinflação, a ascensão de milhões à classe média, a modernização da infraestrutura, o fortalecimento das instituições e o avanço de direitos sociais historicamente negados. Cada governo deixou marcas, algumas celebradas, outras contestadas, e entender como os brasileiros percebem esse legado é entender, em grande medida, quem somos e o que valorizamos como nação.
Os resultados desta pesquisa não devem ser lidos como uma verdade absoluta sobre a história, mas como um retrato do momento atual da percepção pública e, nesse sentido, são tão reveladores quanto qualquer dado histórico.
Resultado da pesquisa:
Fernando Henrique Cardoso — 47%
Jair Bolsonaro — 42%
Lula — 11%
Dilma Rousseff — 0%
O presidente que domou o monstro
Quem tem menos de 35 anos provavelmente nunca sentiu o que é acordar de manhã sem saber quanto vai custar o pão. Para quem viveu os anos 1980 e início dos 90 no Brasil, isso era rotina. A inflação chegou a 2.477% em 1993, o equivalente a preços dobrando a cada mês. Nesse contexto, compreende-se por que Fernando Henrique Cardoso lidera esta pesquisa com 47%.
Contexto histórico
Antes do Plano Real, o Brasil teve cinco moedas diferentes em menos de dez anos: Cruzeiro, Cruzado, Cruzado Novo, Cruzeiro novamente e Cruzeiro Real. A instabilidade monetária não era apenas econômica, era uma crise de identidade nacional.
Além da estabilidade, seu governo aprovou a Lei de Responsabilidade Fiscal, modernizou o sistema de telecomunicações e transferiu o poder ao seu sucessor de forma pacífica após perder as eleições. Em um país com histórico de autoritarismo, esse último gesto merece registro.
Críticos apontam as privatizações como legado controverso, e a crise energética de 2001 como cicatriz do período. Mas na memória afetiva de quem viveu a hiperinflação, FHC é, antes de tudo, o homem que fez o dinheiro parar de derreter.
O resultado que muitos já imaginavam
Se o primeiro lugar surpreende pouco, o segundo confirma uma percepção que já vinha crescendo em diversas regiões do país. Jair Bolsonaro, com 42%, aparece a apenas cinco pontos de FHC. Para muitos brasileiros, principalmente fora dos grandes centros, esse resultado não chega a ser surpresa.
Bolsonaro assumiu um país que já vinha de anos de desgaste econômico e político, após governos marcados por recessão, crise fiscal e uma transição presidencial após o impeachment de Dilma Rousseff, seguido pelo governo de Michel Temer. Além disso, enfrentou uma pandemia global sem precedentes.
Os resultados que marcaram o período
Mesmo diante desse cenário, o Brasil registrou recuperação econômica, crescimento do emprego formal nos últimos anos do mandato, fortalecimento do agronegócio e avanços importantes na digitalização financeira. Um dos maiores exemplos foi o Pix, que revolucionou os pagamentos no país e virou referência internacional.
A agenda econômica conduzida por Paulo Guedes também é lembrada por muitos empresários e trabalhadores como um período de maior abertura econômica, incentivo ao empreendedorismo e fortalecimento da atividade produtiva.
Esse resultado mostra algo importante: a percepção de legado não nasce apenas do debate político. Ela é construída pela experiência prática de milhões de brasileiros no dia a dia.
O paradoxo do presidente mais popular
Aqui está o dado mais paradoxal da pesquisa: Lula, considerado por boa parte dos cientistas políticos como um dos presidentes mais bem-sucedidos da história democrática brasileira, aparece com apenas 11%. Como explicar isso?
Seus dois primeiros mandatos, entre 2003 e 2010, coincidiram com o maior ciclo de redução da desigualdade social da história do país. O programa Bolsa Família retirou mais de 20 milhões de pessoas da miséria. O salário mínimo cresceu acima da inflação por sete anos consecutivos. O Brasil chegou a ser chamado de “país do futuro que finalmente chegou ao presente”.
Mas o terceiro mandato, iniciado em 2023, veio reforçar uma percepção que já havia se consolidado na sociedade: a de um governo marcado por escândalos de corrupção, gestão fiscal irresponsável e deterioração das condições de vida da população. A avaliação negativa do governo cresceu de forma consistente ao longo dos últimos meses, alimentada por uma economia que, apesar dos números do PIB, não chega ao bolso do trabalhador comum. A inadimplência das famílias atingiu níveis históricos. Empresas de pequeno e médio porte seguem sufocadas pelo crédito caro e pela carga tributária, e o número de pedidos de recuperação judicial bateu recordes, um retrato de um ambiente de negócios hostil e sem perspectiva de alívio no curto prazo. A perda do poder de compra é sentida nas compras do mês, nas contas atrasadas e na sensação crescente de que trabalhar mais não resulta em viver melhor.
A isso se soma o peso acumulado de mais de duas décadas de associação do PT a práticas de corrupção, do Mensalão à Lava Jato, que continuam governando o julgamento moral de uma parcela expressiva dos brasileiros. Nenhuma conquista social, por real que seja, apaga completamente uma narrativa de traição repetida. E quando essa narrativa encontra eco no presente, ela se torna ainda mais difícil de reverter.
O silêncio de 0%
Zero. É o número mais estridente desta pesquisa. Dilma Rousseff, que governou o Brasil por cinco anos e meio, não recebeu uma única resposta positiva sobre legado.
O segundo mandato de Dilma foi marcado por recessão em dois anos consecutivos (-3,5% em 2015 e novamente em 2016), desemprego que saltou de 6% para mais de 11% em dois anos, inflação acima da meta e perda do grau de investimento do país pelas agências internacionais de risco. Esses não são números de opinião, são fatos documentados.
A isso somou-se o impeachment de 2016, cujos debates sobre legalidade ainda dividem juristas. Mas o que ficou na memória coletiva não foi o debate jurídico, foi a imagem de um governo que terminou em colapso, com o país rachado e a economia em frangalhos.
O que essa pesquisa revela sobre o Brasil
No fundo, esta pesquisa não é sobre presidentes. É sobre como os brasileiros constroem memória, e sobre o que escolhem lembrar quando pensam no país que tiveram e no país que ainda querem ser. E o retrato que emerge é desconfortável: um país dividido não apenas por ideologias, mas por experiências de vida tão distintas que parecem pertencer a nações diferentes.
FHC lidera porque a estabilidade econômica se consolidou como valor capaz de atravessar gerações e superar fronteiras ideológicas, quem viveu a hiperinflação não esquece, e quem cresceu com o Real entende, mesmo sem ter sentido. Bolsonaro não conquistou 42% apesar da mídia conquistou 42% enquanto a mídia insistia em explicar por que ele não deveria existir. Sua base é silenciosa, mas não é invisível. É o Brasil que trabalha cedo, desconfia do Estado, defende a família e não esquece quando foi tratado como ignorante por acreditar no que acredita. Lula carrega o peso duplo de um legado social real, mas soterrado pela corrupção sistemática e por um terceiro mandato que, longe de reabilitar sua imagem, vem aprofundando o ceticismo de quem ainda lhe dava o benefício da dúvida. E Dilma permanece como símbolo de tudo que pode dar errado quando a incompetência de gestão, a ignorância diante dos sinais da economia. Um capítulo traumático que o Brasil, definitivamente, prefere não revisitar.
Mas o dado mais perturbador desta pesquisa não está em nenhum nome isolado. Está no empate técnico entre o primeiro e o segundo lugar e no que ele revela sobre quem somos.
Porque esse empate não é simples. Ele carrega dois Brasis, dois tempos, duas experiências de mundo completamente distintas. Quem tem mais de 45 anos e votou em FHC carrega na memória algo que não se explica em planilha: a sensação física de ver o dinheiro perder valor da manhã para a noite, e depois, de repente, poder planejar o futuro. Para essa geração, estabilidade não é conceito econômico é alívio existencial. É a lembrança de um Brasil que finalmente respirou.
Já quem enxerga em Bolsonaro o maior legado vive outro tempo e outro tipo de transformação. Não a da inflação domada, mas a da informação democratizada. É uma geração que cresceu questionando, que não depende da grande mídia para formar opinião, que aprendeu a rastrear o que acontece no Judiciário, nos bastidores do poder, nas entrelinhas dos discursos. Para esse grupo, o legado de Bolsonaro não é apenas econômico é político, é cultural, é uma ruptura com um modelo de poder que por décadas decidiu o que o Brasil podia ou não podia saber.
São dois momentos épicos. Dois pontos de virada. Um Brasil que transpôs a hiperinflação e descobriu que podia crescer. E um Brasil que transpôs o silêncio informacional e descobriu que podia questionar. Diferentes no contexto, iguais na magnitude e ambos, à sua maneira, irreversíveis.
Identidades não se convencem com estatísticas. Elas se formam na vida vivida e o Brasil, nas últimas décadas, viveu demais para caber em um único olhar.
Adilson Seixas CEO e Fundador da Loara Crédito


